Em expansao vertiginosa
sexta-feira, novembro 28, 2003
  Emergência

Li com muita atenção a crítica da obra ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, sob o título O Erro de Damásio da autoria do editor do Blogue A Máquina de Turing, já por mim referido. Fico muito contente pela blogosfera permitir esta troca de ideias tão enriquecedora. Sobretudo para um ignorante, como eu, em matérias ligadas às humanidades, cuja perspectiva sobre estes assuntos, se a tivesse, seria uma perspectiva científica, dada a minha formação na àrea da Física.

Por conseguinte, com o devido respeito, na minha opinião, a crítica que li, tem origem numa certa dificuldade em incorporar, no pensamento, o conceito de emergência.

Não basta, de facto, determinar a origem para adquirir uma percepção dos fenómenos. Mas sem determinar a origem não há maneira de perceber o fenómeno. É o que se passa com a hipótese da origem biológica dos sentimentos mesmo daqueles que se dizem sociais. Falar do simbólico, como falar dos sentimentos, por exemplo, algo de extraordinariamente humano, algo que exige um mecanismo de consciência, a própria consciência até, sem admitir um suporte biológico, sem suporte, sem um substrato onde se apoia um outro patamar, o patamar da emergência, não permite sequer formular hipóteses que possam ser testadas. O progresso cientifco a que assistimos e aquele que podemos antever tem como ponto de partida uma identificação dos ingredientes, das origens do fenómeno, dos componentes e das interacções entre componentes, que tipicamente se encontram num patamar inferior, num patamar mais fundamental. Dessas interacções e dessas componentes emerge um comportamento complexo. Pode chamar-se a isto uma espécie de reducionismo, admito que sim, mas até agora não vi qualquer alternativa que possa ser produtiva.

O A. Damásio não deixa quaisquer dúvidas sobre o que pensa sobre o assunto:

(...) o leitor pode talvez discordar (...) e contrapor que a minha descrição se aplica a sentimentos de emoção (...) mas que talvez não se aplique a outra espécie de sentimentos (...) todos os sentimentos são sentimentos de uma das formas de regulação básica da vida (...) desde os sentimentos de dor aos de beatitude
(pg 111)
(...) tenho ouvido dizer que talvez seja possível utilizar o corpo para explicar a alegria, a tristeza e o medo, mas que o corpo nada pode explicar no que diz respeito ao desejo, ao amor, ou ao orgulho. Fico sempre perplexo perante esta relutância (...) (pg 112).

(...) Tem havido até agora relutância em aceitar que o sistema somatossensorial pudesse ser substrato critico para os sentimentos(...)
(...) os sentimentos das emoções dependeriam sabe-se lá de quê. (pg 126)

(...) até há bem pouco tempo a ciência das emoções tem vindo a evitar cuidadosamente a ligação dos sentimentos e qualquer sistema cerebral. Dir-se ia que os sentimentos existiam como uma espécie de vapor suspenso à volta do cérebro (pg. 132)
(...) é dificil imaginar que seres humanos privados de emoções e sentimentos sociais jamais tivessem criado um sistema religioso. (...) (pg. 182)

(...) especialmente na ausência de emoções sociais, a emergência de comportamentos éticos seria improvável (...) (pg. 183) (...) comportamentos éticos, crenças religiosas, leis, justiça e organização política não teriam emergido ou teriam emergido sob uma forma bem diferente. (pg 184)


Aqui faz uma ligação à genética evolucionista de uma forma muito semelhante
à que podemos encontrar descrita em obras de divulgação como as do Matt Riddley e do R. Dawkins.

(...) parece-me razoável pensar que os seres humanos equipados com este repertório de emoções e cujos traços de personalidade incluiriam estratégias de cooperatividade teriam sobrevivido mais facilmente e deixado, por isso, mais descendentes. Essa seria a maneira mais simples de estabelecer uma base genómica para o aparecimento de cérebros capazes de comportamentos cooperativos (pg 187)

(...) Para a maior parte dos cientistas que trabalham nas ciências da mente e do cérebro, o facto de que a mente depende estreitamente da actividade cerebral já não está de forma alguma em causa. (pg 214)
(...) Qualquer coisa de semelhante tem vindo a passar-se com o grande mistério por detrás do problema mente-corpo. Para chegar a uma solução, mesmo uma solução parcial, é necessário mudar a perspectiva. E para mudar a perspectiva é necessário compreender que a mente emerge num cérebro situado dentro de um corpo-propriamente-dito; que a mente permeneceu na evolução porque tem ajudado a manter o corpo-propriamente-dito; e de que a mente emerge em tecido biológico - em células nervosas-que partilham das mesmas características que definem outros tecidos vivos (...) Mudar a perspectiva por si só não vai resolver o problema, mas duvido que se encontre a solução se não mudarmos de perspectiva. (pg. 215)

(...)
É importante vincar que a forma como os padrões neurais se transformam em imagens mentais não está ainda esclarecida. (pg. 222)
(...)
Contudo, os espaços intermediários que nos levam dos padrões neurais às imagens mentais não são ainda conhecidos. É também importante vincar que esta ignorância não contradiz, de forma alguma, a noção de que as imagens mentais são processos biológicos e ainda menos nega a sua fisicalidade.
De certo modo, a investigação da neurobiologia da consciência tem como fito reduzir este estado de ignorância. (...) (pg. 223)

(...)
Ao ligar as experiências espirituais à neurobiologia dos sentimentos, não tenho por fito reduzir aquilo que é sublime à mecânica pura e, ao fazê-lo, reduzir a sua dignidade. O fito é simplesmente o de sugerir que a sublimidade do espiritual está incorporada na sublimidade da biologia, e que é altura de começar a compreender o processo em termos biológicos. Dar conta dos processos fisiológicos por detrás do espiritual não explica o mistério da vida a que esse sentimento de espiritualidade está ligado. Apenas revela a ligação com o mistério, mas não o mistério propriamente dito. (pg 319)

 
quarta-feira, novembro 26, 2003
  Hi, there

Uma pessoa amiga fez o favor de me enviar este texto (muito obrigado, do coração) do Eduardo Lourenço publicado na Visão. Com dificuldade, fiz uma leitura, que tenho embaraço de partilhar. Socorro.

Um novo posicionamento da esquerda sobre conhecimento cientifico é urgente. Depois do Alain Sokal, do A. M. Baptista, da reacção recente do Boaventura, do Prado Coelho e de outros sente-se que falta qualquer coisa. Não pode ser assim. Se assim fosse era mau, demasiado mau. Além do mais, a sindrome de Souselas persegue-me.
 
  Emoção - Ao encontro de Espinosa, António Damásio

Acabei de receber um mail de uma Máquina de Turing que também se interessa
por emoções (ainda não tive tempo de ver em pormenor, lá iremos).

Entretanto decidi que não vou percorrer a minha grande lista de sublinhados do livro do Damásio. Só digo isto uma vez: é um livro extraordinário. Vou apenas dar o que sobra dos sublinhados dos sublinhados, sumariamente comentados. Faço isto, apenas, porque não gosto de ver televisão.

A Educação (sei bem o que isto é e o que me custou)

(...) uma das finalidades principais da nossa educação é interpor uma etapa de avaliação não automática entre os objectos que podem causar emoções e as respostas emocionais. (...)

(...) um dos sinais da chegada à idade adulta (...) nenhuns objectos mantêm (...) inocência emocional.

Doença de Parkinson

Vi há tempos no Odisseia ou no Discovery (já não me lembro) um documentário
impressionante sobre a forma como se implantavam eletrodos no cérebro dos
doentes, conscientes todo o tempo durante a cirurgia, e se faziam desaparecer os sintomas da doença. Desligada a bateria de alimentação os sintomas voltavam de imediato. Damásio descreve, com algum pormenor, a doença e esta técnica de tratamento aplicável a doentes que não reagem à levodopa. Fala de um caso particular onde se desencadeou um mecanismo espúrio de depressão nervosa pondo em evidencia o grau de localização (precisão) de algumas funções cerebrais.

O sentimento
Tenho discutido este assunto com o meu amigo que faz Yoga. Diz-me ele que os orientais já sabiam disto há muito tempo.

(...)O sentimento de uma emoção, no seu mais puro e estreito significado, era a ideia do corpo a funcionar de uma certa maneira.(...)

Bom ainda falta muita coisa. Já tinha mais, mas um infortunio fez-me perder parte substancial. Vou acrescentando aqui nos próximos dias.

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(...) o corpo é continuamente mapeado num certo número de estruturas cerebrais.

Recorrência

A consciência e o conhecimento do si são processos onde o efeito da recorrência parece importante:

(...) O objecto imediato do sentimento e o mapa desse objectopodem influenciar-se mutuamente numa espécie de processo reverberativo (...)

Neuroimagem funcional, Tomografia de emissão de positrões,...

(...) a primeira necessidade (...) para que haja sentimento (...) é a presença de um sistema nervoso. (...) capaz de mapear as estruturas do corpo (...) e transformar padrões neurais (...) em padrões mentais, ou seja, imagens. (...) a consciência é também uma necessidade básica (...)

Simulação do estado do corpo
(...) não têm origem necessariamente no estado real do corpo mas sim no estado real dos mapas (...)
(...) as alucinações do estado do corpo (...) são dispositivos valiosissimos para a mente normal.

A bagagem (...) de sabedoria (...) a capcidade de comparar passado e presente (...) a possibilidade de antecipar na forma de uma simulação imaginária (...)

(...) o sinal emocional não é um substituto do raciocineo (...) tem um papel auxiliar.

Na ausência de emoção teria sido dificil conceber a figura de Deus.

A essencia do comportamento ético não parece ter começado com os seres humanos.

Fundamentos da Virtude

Esta secção em que Damásio nos leva ao encontro de Espinosa é, na minha opinião, muito interessante.
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segunda-feira, novembro 24, 2003
  Dia Nacional da Cultura Cientifica (actualizado)

Queria festejar, com fogo. Honestamente, não saiu bem. Esta figura de lado deveria mostrar uma animação gif com fogo de artificio ( Fico muito grato que quem (não) veja o fogo me deixe um comentário - vi/não vi. Vindos de quem sabe, também agradeço conselhos. Como por exemplo, botao direito do rato mostrar imagem, mas mais elegante).

Lembro-me, agora, do meu tio que já não vejo há muito tempo (Olá tio, todos os anos pergunto por si, sei que deixou de fumar logo logo que o médico lhe meteu medo).

O meu tio era mordomo de Sto. António. Era preciso uma noite inteira para escolher o fogo. Os mordomos não se punham de acordo. Uns gostavam das estrelinhas, trr, trr, trr. Outros preferiam estrelinhas com pum, trr, trr, pum, pum. O reitor Belém não prescindia dos morteiros, PUM, PUM, PUM. E assim se consumiam todos trr, trr, prr, pi, pi, pum, pum PUM, PUM noite dentro trr, trr, prr, pi, pi, pum, pum PUM, PUM sem chegar a entendimento. O meu tio vinha para casa e descrevia-nos minuciosamente a reunião, as divergências, quem tomava partido pelas estrelinhas, pelos morteiros, e nós, pequenos, riamo-nos, riamo-nos e ficavamos o resto do dia, trr, trr, prr, pi, pi, pum, pum PUM, PUM sem parar de rir a imaginar o Sr. Amaral a dizer ao reitor: não seria melhor trr, trr, pum pum e o reitor a dizer nem pensar PUM, PUM, PUM.

 
quarta-feira, novembro 19, 2003
  Homem vs. Máquina no Xadrez

Li com muito interesse, no Abrupto, os diferentes comentários a propósito do embate Kasparov- X3D Fritz que está a ter lugar. Tenho uma paixão obsessiva, desde muito jovem, pelo xadrez e a inteligência artificial é um assunto que me fascina. Não só pelo aspecto tecnológico mas também por questões mais fundamentais, de ordem filosófica. Interessa-me muito também a tentativa da neurociência de tentar perceber o problema da relação entre o corpo, visto como máquina, e a mente, como fenómeno emergente de processos físicos, químicos e biológicos.

Claro que o X3D Fritz foi feito por humanos e a sua vitória também é uma vitória dos humanos. Mas dizer isto é fugir à questão essencial que é a de saber se uma máquina pode bater o cérebro na solução de um problema onde o cálculo exaustivo de possibilidades não é o caminho para a solução. O xadrez é um jogo finito, claro. No entanto, o número de possibilidades cresce tão rapidamente com a profundidade da análise que existe um limite para a máquina. É também claro que o cérebro é muito inferior à máquina na capacidade de seguir essa árvore de possibilidades. Como é que pode então o grande-mestre rivalizar com a máquina? O que se passa é que o grande-mestre avalia uma posição de uma forma qualitativa, usando principios estratégicos que lhe permitem eliminar a maioria das possibilidades e seguir apenas dois ou três dos seus ramos. Para além disso o grande-mestre usa
a capacidade do cérebro de reconhecer padrões - sabe de memória umas centenas (ou até milhares) de partidas e consegue rapidamente selecionar de entre elas as que levaram a posições semelhantes às que encontra naquele momento, usando esse conhecimento para encontrar as ideias certas e em última análise os lances que se adequam melhor à posição. Trata-se mais uma vez de restringir o número de possibilidades susceptiveis de justificar uma análise táctica detalhada. Não são portanto os programadores que são "fracos".

O Deep Blue da IBM baseava a sua força no cálculo exaustivo de possibilidades dispondo para isso de "hardware" especializado. Não apenas o cálculo, mas também o recurso a uma base de dados de numerosas partidas jogadas por humanos. O X3D Fritz é um programa "mais inteligente" uma vez que não tira exclusivamente partido da "força bruta" do cálculo.

Existem posições onde o cálculo é mais importante e nessas posições o computador é virtualmente imbatível. Em posições fechadas ou em posições onde é possível uma entrega estratégica de material a máquina é ainda inferior. A correcção de uma entrega estratégica deste tipo é avaliada por factores qualitativos e só muitos lances à frente a sua efectividade pode ser apreciada sem o recurso a uma análise qualitativa. A riqueza do xadrez consiste precisamente em permitir que situações destas ocorram. Caso contrário tudo era redutivel a um exercicio de cálculo do tipo árvore.

Existe portanto um "estilo" de jogo adequado para defrontar um computador. Os grande-mestres têm por vezes dificuldade em adaptar o seu estilo de jogo. Uma das pessoas que mais reflectiu sobre isso foi o grande-mestre David Bronstein tendo alcançado alguns resultados interessantes.
Uma colecção das datas mais importantes da história da incursão dos computadores no xadrez pode encontrar-se aqui.

Pelo nome de teste de Turing pode entender-se, em sentido genérico (embora se possa precisar mais), um procedimento capaz de distinguir um humano de uma máquina. No caso do xadrez podiamos simplesmente pensar em dar a um grande-mestre várias partidas jogadas por humanos e por computadores e pedir-lhe que, pela análise das partidas, indentifique os computadores. Estou certo que poderia enganar-se aqui e ali mas um grande-mestre deve ser capaz de acertar na maioria dos casos e portanto distinguir um computador de um humano a jogar xadrez.

Assim chegamos ao grande problema, o problema que a neurociencia está agora a tentar colocar e que se espera um dia venha a resolver (vejam-se os livros de divulgação do António Damásio): o problema de se saber como é que uma máquina pode ter ideias e qual o mecanismo da consciência. Este é o problema central, o último problema, aquele que não sei se viverei o suficiente para saber a resposta. Um problema que não só preocupa os neurocientistas como também aqueles que vêm da inteligencia artificial e até físicos, como Roger Penrose.

Aqui está uma análise que mostra o "mau" xadrez que um programa excelente como o Fritz pode jogar. 
sexta-feira, novembro 07, 2003
  O conto de Quiroga de que falava Fernando Alves, na TSF, no outro dia, pela manhã.

Retirado daqui .

Citando Virgilio Ferreira, o abundante tempo livre, antes de morrer (as exéquias já tiveram lugar, entretanto) surpreendia-se com frases belas, perto da morte.
No Pensar (1992), Vergílio Ferreira escreve "Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte?" E refere, "tudo está bem" de Kant, "mais luz" de Goethe, "amanhã o que virá" de Pessoa e "levem daqui as mulheres" de Herculano.
Diz ainda, "à hora da morte devia-se era estar calado".

Mas, à deriva, parece existir um momento em que tudo parece calmo e claro.

O conto fala-nos da pequenissima distância entre a vida e a morte.

A la deriva,

El hombre pisó algo blancuzco, y en seguida sintió la mordedura en el pie. Saltó adelante, y al volverse con un juramento vio una yaracacusú que, arrollada sobre sí misma, esperaba otro ataque.

El hombre echó una veloz ojeada a su pie, donde dos gotitas de sangre engrosaban dificultosamente, y sacó el machete de la cintura. La víbora vio la amenaza, y hundió más la cabeza en el centro mismo de su espiral; pero el machete cayó de lomo, dislocándole las vértebras.

El hombre se bajó hasta la mordedura, quitó las gotitas de sangre, y durante un instante contempló. Un dolor agudo nacía de los dos puntitos violetas, y comenzaba a invadir todo el pie. Apresuradamente se ligó el tobillo con su pañuelo y siguió por la picada hacia su rancho.

El dolor en el pie aumentaba, con sensación de tirante abultamiento, y de pronto el hombre sintió dos o tres fulgurantes puntadas que, como relámpagos, habían irradiado desde la herida hasta la mitad de la pantorrilla. Movía la pierna con dificultad; una metálica sequedad de garganta, seguida de sed quemante, le arrancó un nuevo juramento.

Llegó por fin al rancho y se echó de brazos sobre la rueda de un trapiche. Los dos puntitos violeta desaparecían ahora en la monstruosa hinchazón del pie entero. La piel parecía adelgazada y a punto de ceder, de tensa. Quiso llamar a su mujer, y la voz se quebró en un ronco arrastre de garganta reseca. La sed lo devoraba.

-¡Dorotea! -alcanzó a lanzar en un estertor-. ¡Dame caña!

Su mujer corrió con un vaso lleno, que el hombre sorbió en tres tragos. Pero no había sentido gusto alguno.

-¡Te pedí caña, no agua! -rugió de nuevo-. ¡Dame caña!

-¡Pero es caña, Paulino! -protestó la mujer, espantada.

-¡No, me diste agua! ¡Quiero caña, te digo!

La mujer corrió otra vez, volviendo con la damajuana. El hombre tragó uno tras otro dos vasos, pero no sintió nada en la garganta.

-Bueno; esto se pone feo -murmuró entonces, mirando su pie lívido y ya con lustre gangrenoso. Sobre la honda ligadura del pañuelo, la carne desbordaba como una monstruosa morcilla.

Los dolores fulgurantes se sucedían en continuos relampagueos y llegaban ahora a la ingle. La atroz sequedad de garganta que el aliento parecía caldear más, aumentaba a la par. Cuando pretendió incorporarse, un fulminante vómito lo mantuvo medio minuto con la frente apoyada en la rueda de palo.

Pero el hombre no quería morir, y descendiendo hasta la costa subió a su canoa. Sentose en la popa y comenzó a palear hasta el centro del Paraná. Allí la corriente del río, que en las inmediaciones del Iguazú corre seis millas, lo llevaría antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.

El hombre, con sombría energía, pudo efectivamente llegar hasta el medio del río; pero allí sus manos dormidas dejaron caer la pala en la canoa, y tras un nuevo vómito -de sangre esta vez- dirigió una mirada al sol que ya trasponía el monte.

La pierna entera, hasta medio muslo, era ya un bloque deforme y durísimo que reventaba la ropa. El hombre cortó la ligadura y abrió el pantalón con su cuchillo: el bajo vientre desbordó hinchado, con grandes manchas lívidas y terriblemente doloroso. El hombre pensó que no podría jamás llegar él solo a Tacurú-Pucú, y se decidió a pedir ayuda a su compadre Alves, aunque hacía mucho tiempo que estaban disgustados.

La corriente del río se precipitaba ahora hacia la costa brasileña, y el hombre pudo fácilmente atracar. Se arrastró por la picada en cuesta arriba, pero a los veinte metros, exhausto, quedó tendido de pecho.

-¡Alves! -gritó con cuanta fuerza pudo; y prestó oído en vano.

-¡Compadre Alves! ¡No me niegue este favor! -clamó de nuevo, alzando la cabeza del suelo. En el silencio de la selva no se oyó un solo rumor. El hombre tuvo aún valor para llegar hasta su canoa, y la corriente, cogiéndola de nuevo, la llevó velozmente a la deriva.

El Paraná corre allí en el fondo de una inmensa hoya, cuyas paredes, altas de cien metros, encajonan fúnebremente el río. Desde las orillas bordeadas de negros bloques de basalto, asciende el bosque, negro también. Adelante, a los costados, detrás, la eterna muralla lúgubre, en cuyo fondo el río arremolinado se precipita en incesantes borbollones de agua fangosa. El paisaje es agresivo, y reina en él un silencio de muerte. Al atardecer, sin embargo, su belleza sombría y calma cobra una majestad única.

El sol había caído ya cuando el hombre, semitendido en el fondo de la canoa, tuvo un violento escalofrío. Y de pronto, con asombro, enderezó pesadamente la cabeza: se sentía mejor. La pierna le dolía apenas, la sed disminuía, y su pecho, libre ya, se abría en lenta inspiración.

El veneno comenzaba a irse, no había duda. Se hallaba casi bien, y aunque no tenía fuerzas para mover la mano, contaba con la caída del rocío para reponerse del todo. Calculó que antes de tres horas estaría en Tacurú-Pucú.

El bienestar avanzaba, y con él una somnolencia llena de recuerdos. No sentía ya nada ni en la pierna ni en el vientre. ¿Viviría aún su compadre Gaona en Tacurú-Pucú? Acaso viera también a su ex patrón mister Dougald, y al recibidor del obraje.

¿Llegaría pronto? El cielo, al poniente, se abría ahora en pantalla de oro, y el río se había coloreado también. Desde la costa paraguaya, ya entenebrecida, el monte dejaba caer sobre el río su frescura crepuscular, en penetrantes efluvios de azahar y miel silvestre. Una pareja de guacamayos cruzó muy alto y en silencio hacia el Paraguay.

Allá abajo, sobre el río de oro, la canoa derivaba velozmente, girando a ratos sobre sí misma ante el borbollón de un remolino. El hombre que iba en ella se sentía cada vez mejor, y pensaba entretanto en el tiempo justo que había pasado sin ver a su ex patrón Dougald. ¿Tres años? Tal vez no, no tanto. ¿Dos años y nueve meses? Acaso. ¿Ocho meses y medio? Eso sí, seguramente.

De pronto sintió que estaba helado hasta el pecho.

¿Qué sería? Y la respiración...

Al recibidor de maderas de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, lo había conocido en Puerto Esperanza un viernes santo... ¿Viernes? Sí, o jueves...

El hombre estiró lentamente los dedos de la mano.

-Un jueves...

Y cesó de respirar
 
domingo, novembro 02, 2003
  Espaço, geometria, singularidade, deformação, fusão, totalidade, simulação



Vieira da Silva
(1908 - 1992 )
La partie d'échecs
(1943)
 
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